Galeria

domingo, 3 de outubro de 2010

NOITE INFELIZ

I

Bate o sino, bate a fome,
Pequenino nasce o homem...
Seu estábulo é de zinco,
Bate o sino, bate o hino, bate o homem...

Grito pequenino, alimento que não vem,
Pobre do menino, filho de alguém...
Bate o cinto no menino
Que na revolta sonha um dia bater também...

Bate o sino, o trator feroz vem,
Sonho pequenino, escombros de alguém...
Império do menino fixado na memória,
Nasce Deus menino fudido com sua história...

JD. Pantanal, Amazonas Pantanal,
Cadê espírito do natal que vive
Propagando o julgo igual?
Ilusão estatal desapropriador sem igual!

Bate a angustia, bate a vergonha,
Bate o desespero, menos o bom velhinho...
Será por não ter no guia seu endereço?
Será por não ter chaminé para por a meia?
Ou por não ter mais casa no dia do natal?

How, how, how, sorriso da desigualdade!
Sem humanidade, identidade, cidade,
Propriedade, prosperidade, oportunidade!

O trampo é de rena, puxando o trenó,
Arrastando “bom” velhinho, capitalista capataz...
Bate o sino pequenino, bate a “sina” do excluído,
Nasce Deus menino pro seu próprio bem!

Bate o sino, bate o cativeiro,
Agora o menino é reconhecido como alguém...
Já nasceu o Deus menino dos subtraídos,
Criado pela ostentação dos seus reféns!

Foge o Tony, nas mãos o panettone,
Bate o sino, pow, pow, dois tiro abate o Tony...
Corre o menino, buscando mais além,
Cidade de Belém, ficção de alguém!

II

Meu velhinho tem cabelo duro,
Nariz chato, lábios grossos,
Às vezes terno de linho...
Meu velhinho pisa na poça, no excremento,Banimento,
mas nunca no menino que vive no tormento!

Aqui não bate o sino, bate o agogô,
Aqui toca berimbau e bate nosso tambor...
Cada qual segundo seu labor,
Berimbau resistência; tambor nosso clamor!

Aqui o bom velhinho conta história bem veraz,
O resto por aí, é papo de algoz capataz...
Nosso bom velhinho é preto e pobre como nós
Trás amor guerra e paz na resistência de ancestrais!

O bom velhinho não precisa de trenó,
Têm dedos entre os nós, pernas firmes como de avós...
Aqui a veste é imperial, de um povo bem real,
Que trás sorriso independente do natal e carnaval!

Aqui não tem presépio e nem presepada,
Nem bacalhau quanto menos bacalhoada...
Aqui tem frango assado, tem farofa e feijoada,
Aqui tem distribuição de cultura a molecada!

O nome bom velhinho... Deixa pra lá,
Criado por europeu perseguidor dos yorubá,
Aqui reverenciamos nosso sábio nêgo Griot
Que segue desmitificando conversa de colonizador!

"Faz parte do texto (Conheça-te a ti mesmo periférico)"

domingo, 19 de setembro de 2010

HQ



"Estudo de pintura digital que realizei sobre HQ"

sábado, 18 de setembro de 2010

Lauryn Hill



"Mais uma negra que tive o prazer de ficar algumas horas adimirando enquanto pintava"

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Alma



"MAIS UMA IMAGEM PARA O LIVRO (O Presbítero e as Gargulas)"

terça-feira, 24 de agosto de 2010

ANGELICAL




"Essa imagem foi criada para o livro 'PRESBÍTERO E AS GARGULAS' de ficção, mas com ilustrações."

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

HAJAR AL-ASUAD OU PÉROLA NEGRA

PRÓLOGO:

Por volta de 1954, a Argélia se encontrara imersa em um mar sangrento onde a putrefação de seus corpos adornavam os coturnos dos gendarmes. O céu estava cinza e opaco; a luz solar ficara na lembrança. Alguns moribundos argelinos eram “premiados” a vislumbrar, de certo que por segundos, os pássaros de engrenagens que cuspiam “anjos de Deus” que estripavam fielmente. Os tentáculos franceses estavam lançados. Eclodia um poder tirânico que massacrava diariamente o povo colonizado, que inerte de qualquer esperança e sublevação, se fixava em temores que lhes adentravam e difundiam sua essência. A hecatombe estava ao relento. As mães clamavam continuamente aos franceses, que continuamente ceifavam pelo codinome: Pátria. Aqui (Pátria) tinha o sinônimo de Deus. Mas meio a tanta violência que o colonizado estava submerso, será que surgiria guerrilheiros impetuosos e insurrecionados para instanciar um fim perene na covardia francesa que se alastrava imune há tempos? Isso era o que todos esperavam ainda que desacreditados de si mesmos.

A burguesia francesa – de forma muito astuta – manobrava alguns intelectuais argelinos, afim de que apregoassem ao povo uma mansidão pautada na sua religião e jamais na violência que proferiam ser o assombro de um passado canibalesco. Os burgueses se mostravam senhores através de sua moral religiosa artificial, assim como a coragem derivava do mesmo escalão. O momento era de muita tensão e expectativa para os argelinos que não suportavam as humilhações que se fundia a uma “tensão muscular”.

A violência francesa se tornara a fomentação de sua própria destruição, pois fora através dela que o povo argelino entendera que para submergir desse caos nefasto era necessário utilizar da violência para uma possível libertação. Os contra-ataques dos argelinos através de combates violentíssimos corroboravam sua tese de que somente através da resistência e aniquilação de seu opressor é que seriam senhores de si mesmos: é como na lei da física que “dois objetos não podem ocupar o mesmo espaço”. Era como uma parede pintada por uma tinta de uma mitologia de falácias exposta a uma tempestade constante de trovões, relâmpagos, granizos e lufadas de ventos, que furiosamente agredia a parede destoando sua cor até ser dissolvida por completa. A ovelha passava a ser lobo; mas o lobo passava a ser raposa! O ensino tinha atestado seu termino e o mestre, assim como o seu DNA, não pôde se manifestar para que se mudasse o velho ditame corriqueiro: o aluno brilhante supera o pedagógico mestre! Depois de muito tempo fermentando no âmago de cada individuo da Argélia, a resistência se consolidava através da violência que se apresentava apenas como um ameno prelúdio, mas aos colonizadores, como o cavaleiro do apocalipse montado em seu cavalo de fogo e sua espada incisiva em punho rodopiando na atmosfera murmurando por mais violência.

O colono buscava subterfúgio de seu complexo do pânico perante o negro-asiático. Cada olhar proferido do colonizado que se direcionava ao colono lhe advinha como uma ameaça a sua vida e virtudes. Travara a maior de suas batalhas escondendo-se amedrontados como uma criança do trovão, que ao passar da tempestade, submergindo do seu ‘eu’ cartesiano destilando mentiras heróicas de sua egolatria. A única virtude que não lhe era fictício, era seu tremor perante o oprimido que demorava a perceber sua fragilidade, mas quando assim o percebia, voltava a desbravar rumo à liberdade. O homem branco no sistema colonial não entendera ainda que o negro deixara de temê-lo quando tomou a primeira pancada, pois a segunda tinha a fel da primeira não mais inédita. Então o homem branco extraia seu nutriente de sua irascibilidade mostrando-se enquanto qualidade e não essência. Sua metafísica era perfeita, mas a práxis do oprimido transcendia sua singular subjetividade.

Facções foram criadas para uma possível organização dos pensamentos e ideais, mas deveras lhes foram engendrados o vírus da divisão. A política adentrava no âmbito da religião, onde buscava apenas, que seus conhecimentos ancestrais não fossem profanados e trocados por outra: a européia. As divisões criavam discórdia e as discórdias às divisões, mas algumas facções se mentiam arraigadas na idéia de uma tomada de poder pelo povo autóctone. A frança do presidente Charles De Gaulle se empenhava para uma aniquilação, se necessário, para manter o controle do país africano, mas a frança do povo castigado pelas investidas alemãs e outras revoluções mais, não entendera como poderia ser um pais destruído por tantas batalhas financiar para matar, enquanto seu povo estava entregue a própria miséria.

O islamismo e suas doutrinas perderam sua potência suprema a respeito das mulheres que, se organizavam em barricadas despindo-se de suas burcas e tradições, vislumbrando assim na resistência, a possibilidade de fuga de um ancestral frenesi opressivo e vigente. A única coisa que se mantinha sobre efeito de ebulição era a língua berbere e árabe, e o instinto de violência adormecida em seus subconscientes contra seus opressores. Uma facção clandestina conhecida por essas mulheres como GLPN (Guerrilheiras Libertarias Pérola Negra) fora o estopim de uma série de ações aniquiladoras. Estupradas, desmoralizadas, condenadas, penitenciadas, desdenhadas, abandonadas, retalhadas, essas guerrilheiras buscavam uma desmistificação religiosa e déspota através de contra-ataques que os franceses adjetivavam de terrorismo.
A Argélia se dividia entre uma Argélia argelina e entre uma Argélia francesa. A Argélia argelina era defendida pelo povo autóctone que se dividiam entre camponeses e facções legais – que agiam dentro de um estatuto imposto pelos franceses – e facções clandestinas, que agiam dentro de um estatuto imposto por suas cicatrizes corporais e inflamações internas e externas. A Argélia francesa era defendida pelos franceses da frança e pelos pieds-noirs (franceses que nasciam na Argélia) que se organizavam através de uma facção conhecida por OAS (Organização do Exército Secreto) confeccionada por “excrementos” repudiados da própria frança para outros países. Os confrontos eram intermináveis entre todas as facções e os “exércitos”, mas quando os pieds-noirs entenderam que o país seria “entregue” aos autóctones por possuírem mais forças, começaram uma sucessão de ataques incendiários e destruidores contra todos os monumentos edificados por eles: faculdades, comércios, escolas, quartéis, praças, prefeituras, reservatórios de combustíveis, alojamentos portuários e etc., utilizando o slogan: “se a Argélia não é francesa, os monumentos franceses não serão argelinos!” é dessa forma que se travara a batalha violenta e aniquiladora entre franceses e argelinos; pieds-noirs e autóctones de facções clandestinas.



CAPÍTULO I

Zaujah

Os músicos entoavam canções harmoniosas proveniente de significados proféticos e milenares; o som anunciava um contrato que em árabe se diz “Nikah” (conexão e cumplicidade) de um casal, cuja música, se fazia suntuosa e profetisa do consensual. O som provinha de um grande casarão branco que até lembrava o próprio Taj Mahal indiano. Abu-Béquer festejava solenemente sua união com sua zaujah (esposa), por isso o dia era festivo e alegre. Ele fora criado dentro dos costumes islâmicos seguindo a submissão incondicional a Allah e buscando o entendimento as profecias de Muhammad. Guardara imbuído em seu interior uma história paralela e inalcançável.
Ele escondia um sentimento que sentira por sua prima que, por sua vez, o correspondia intensamente; devaneios e flertes eram corriqueiros a ambos que suspiravam a cada dia não entendo o labor da paixão, apenas o sentindo. Mas como se de repente, não mais que de repente, esse “portal” metafísico – a única forma que se sentiam unificados – fora destruído por uma gigantesca “bola de fogo” que surgira do mais profundo dos mundos: a amada acabara de ficar comprometida por intermédio de seus pais.

Abu-Béquer então se casara sem expressar uma vivacidade amorosa por sua escolhida, pois ainda tangiam as lembranças de um amor veraz; sentia somente asco de uma vida a dois sem sua eterna amada, mas respeitava as tradições e tentava ser um bom marido. Nada faltava em seu lar e a sua esposa, que sempre estava envolta em seus sentimentos (embora a cultura oriunda persistisse em bradar que as mulheres muçulmanas não eram imbuídas de sensibilidades, sendo sua dádiva peculiar, ser um instrumento disponível e servil ao marido), ela sentia igualmente asco de seu marido.

Ela sempre se questionava essa forma de casamento islâmica arcaica, mas respeitava seus pais acima de tudo, por isso casou-se mesmo assim. Não gostava de Abu-Béquer ou do fato de agora ter um marido para cuidar, ou então, por roubá-la do seu celibato necessário. A moça perdia-se temporalmente dentro de seu quarto no mundo da leitura que lhe arraigava saberes questionadores, mas em meios a esses turbilhões de acontecimentos, conseguia conduzir a divisão de leitora e esposa sem que houvesse cobranças. Com o passar do tempo a esposa deixara de lado suas investigações literárias e engendrou-se em se mesma o “amor sucedâneo”. O fenômeno ocorrera de forma descontrolada, parecia à reminiscência de algo que fora ofuscado e, que agora abruptamente, resolvera submergir. O idealismo islâmico sobre uma “esposa submissa” ao seu marido e a santidade perfeccionista de seus dogmas, arraigou-se no seu espírito que se sufocava envolto a ervas daninhas irrefutavelmente mortífera.
Deveras havia algumas prévias sobre discussões a respeito de como as mulheres muçulmanas necessitavam sair desse enfadonho julgo religioso, mas pelo fato delas terem mantido contato com o povo ocidental, a retórica islâmica encontrava seu epíteto:

“como uma esposa nascida e criada nas tradições que lhe são oriundas, oscilam pela cultura pecadora? Como podem os ocidentais julgar nossa cultura, se já estão arraigados no pecado contra seu próprio Deus?”

Esse era o epilogo que impregnava nos corações da maioria das esposas muçulmanas. A esposa de Abu-Béquer fulgurava em seus devaneios, que sempre resultava em inesgotáveis submissões e, por parte do marido, apenas em mais intolerância que trazia no refugio de seu peito doído. A pequena muçulmana conversava trivialmente com sigo, pois não tinha amigas e, pensara que se tivesse alguma amiga, seu marido poderia sentir-se completamente enciumado. Cantava e agradecia Allah, pelo marido que lhe amava e era amado. Lembrava sua primeira noite nos calóricos braços de seu marido, que por sua vez, sempre era muito fugaz. Essa fugacidade começou a ser constante e a intrigar a pequena esposa. O marido se abduzia profundamente das expectativas da esposa, causando assim, uma petrificação perante qualquer manifestação afetiva da desafortunada. Abu-Béquer já vivia mais fora de casa e com os amigos de trabalho. Algum tempo corrente bastou para a pequena muçulmana começar a enxergar que algo estava muito errado, o que a trasladou a pensar intensamente e chegar a uma conclusão:

“meu marido está me rechaçando a cada dia mais, será que não estou mais lhe agradando ou será que são os pensamentos ocidentais que lera há tempos atrás que está fazendo de mim uma pecadora? É... É isso mesmo, tenho debruçado em sentimentos que não são muçulmanos e estou sendo iludida como os sábios disseram... tenho dado ouvidos a muitas coisas que meu marido não aprovaria, pois tenho buscado uma nova forma de sentir e amar intensamente, mas vejo que isso só está afastando meu querido e fiel marido de perto de mim... Estou colhendo o que plantei em meu jardim! Logo agora que Allah nos abençoou com sua dádiva.”

O sincretismo pairava na ínfima estrutura psíquica, onde a jovem muçulmana na sua retrogradação, se flagela-ia mais ainda por não compreender que não existia amor em seu marido a ser compartilhado com ela.

A princípio, Abu-Béquer transladava suas lamurias nos elogios que recebera por parte dos anciões muçulmanos, mas toda noite lembrara-se do seu verdadeiro amor que tinha sido rompido por um contrato sancionado. Já estava insustentável seu casamento, e as lembranças de seu verdadeiro amor estavam perturbando sua mente desgostosa da própria vida. Ele insatisfeito, então resolve buscar respaldo nos dogmas islâmicos para sair dessa situação que ele mesmo se envolveu; talvez por despeito, ou simplesmente para tentar esquecer sua amada, mas rodopiava como um pião sobre o mesmo espaço perdido em um e o mesmo pensamento: o divórcio! No entanto encontrara no talaq uma forma de se divorciar, mas para isso precisaria esperar os três ciclos menstruais de sua esposa para que tenha a certeza dela não estar grávida, para ele seria uma eternidade. Nas encostas da sala ele encontra-se ou esbarra-se com sua esposa que alegremente ostenta um cintilante sorriso, mas sem demora ele prossegue com sua mente “armada”, cuja suas duas primeiras munições, o Talaq (repúdio ou declaração unilateral) é deflagrado:

- eu me divorcio de você! Disse ele.
- não me desampares. Ela retrucou.
- eu me divorcio de você! Confirmou.
- que assim seja! Ela definiu com os olhos carregados de lágrimas sabendo que ouviria pela terceira vez a mesma frase dando termino a seu casamento.

O clima ficara desordenado, pois ambos adentraram em sua introspecção confeccionando seus próprios silogismos. Agora deveras é somente esperar o ciclo da esposa e pela terceira vez pressionar o “gatilho” de sua mente deflagrando assim seu ultimo disparo. Abu-Béquer ficara hospedado no alojamento onde trabalhava para não precisar esbarrar em sua esposa e encontrá-la triste e chorando pelos cantos da casa, mas para que também o tempo pudesse passar mais rápido. As famílias conversavam sobre uma possível reconciliação, mas ele era irredutível em sua decisão.
A esposa desconsolada buscava resgatar cada centímetro de suas lembranças sobre os raros momentos que vivera com seu marido, mas essa regressão temporária levava-a caminhar sobre veredas da desilusão, pois no fundo do túnel encontrava-se com si mesma de braças abertos. Sentia-se abandonada nas encostas de seus devaneios, mas a crendice de uma reconciliação lhe era eminente, por mais que entendera e sentira que não havia mais possibilidades favoráveis a ela.

No primeiro mês do ciclo de sua esposa Abu-Béquer fora abordado por homens de uma facção clandestina e interna islâmica, para dar suporte na guerrilha contra os pecadores ocidentais que marchavam rumo a uma possível destruição em massa de uma pequena comunidade muçulmana, ele atestou seu compromisso de divórcio, mas fora logo refutado por enigmáticos aforismos citado por um dos homens; por fim, ele então pegou todas as suas coisas necessárias e desviou-se de seu compromisso de outrora e embarcara nessa peleja. Sua esposa fora procurada pelos empregadores de seu marido, pois a disseram que ele tinha sumido já alguns dias abandonando assim seu emprego e que traziam alguns de seus pertences que restaram no seu armário. Seu mundo desabara e pensamentos horripilantes a assombrava diariamente; temia que seu marido estivesse morto, pois mesmo sabendo de suas intenções ela o amava muito, mas quanto mais tempos se passava ela desconfiava de duas coisas: a primeira era que seu marido não voltaria; e a segunda era que poderia estar grávida.


A hecatombe homogênea

Seis meses e meio se passara e, a pequena que já não era tão pequena, estava com sua barriga saliente. Não pensara mais no “marido”, pois ficara sabendo do seu paradeiro e escolha; seus pés aos poucos tocavam o solo e sua misericórdia ganhara a atmosfera junto das rapinas.

Os dias se engatinhavam; as noites eram perenes, mas a jovem passava mais tempo alisando sua barriga perdida em seus pensamentos... Parecia até que conhecia as formas e sua face do “devier” a priori: a criança já tinha uma identidade metafísica. Sua realidade era caótica e melancólica, pois vivia confinada dentro daquele “Taj-Mahal” sozinha sendo assombrada apenas por suas pegadas que sempre estava no seu encalço e sua respiração que sempre estava defronte ostentado seu nevoeiro sombrio e descontente. As lufadas de vento “uivavam” seu réquiem como se fosse seu ultimo suspiro; as cortinas faustosamente bailavam entrelaçando em si mesma em sua dança lasciva que, solenemente sobre o solo de granito, era metamorfoseada em imagens fenomênicas. Mas ela tentava driblar esses infaustos produzidos por sua mente esmagadora e passava mais tempo com si mesma e com sua “semente” que potenciava – em seu ver – a criação.

Em um desses dias que ela “chocava seu ovo como uma galinha seu pinto”, ouvira sua porta ser espancada, como os negros desde o século XV; seus nervos enrijeceram na cadência das contrações de uma vida buscando abrolhar, mas dessa vez o a priori fugira deixando para trás apenas o a posteriori que lhe mostraria que o “jardim” faustoso de todos os tempos, tornar-se-ia um jardim envolto em ervas daninhas sufocantes. Seu coração galopava freneticamente; sua boca tornava-se mais seca que o Saara. Seu sangue era bombeado a todo vapor por suas engrenagens, enquanto a vida continuamente reclamava sua chegada: as contrações pareciam seguir a cadência da porta que, também de forma continua prosseguia reclamando. Acuada sobre um canto da casa, cuja luz parecia ter rompido relação, ela vê sua porta ser arrombada por homens fardados gritando e apontando seus fuzis sobre sua fronte sem titubear:

- onde está Abu-Béquer?! Onde está Abu-Béquer?! Esbravejava um soldado francês.
- não sei de meu marido... Por favor, não me machuque estou grávida! Responde Ela.
- aquele negro imprestável ainda teve tempo para copular?! Joseph, Joseph, mostre-a por duas noites quem manda aqui, talvez ela goste e fale onde está aquele negro imprestável! Grita o soldado irritado novamente.

Dois dias se passam e a nossa pequena estava se retorcendo em dores por todo corpo. Os soldados se revezavam no seu estupro e nas torturas anais. Seus gritos ecoavam por toda cidade, mas nada e nem ninguém, ousava fazer algo ao seu beneficio, pois “todos” subsistiam abarrotados de medo e terror.
Então cansada das torturas e humilhação e, principalmente com medo de acontecer algo mais grave com sua gravidez, a esposa perante um soldado foi tomada por uma ressurreição de suas forças gritando “chega de apanhar!”. Começa um combate entre ambos. O soldado enfurecido a golpeia na barriga e na cabeça, mas a brava esposa empenha-se a dilacerar o simbólico “Deus Phallós”. Os outros soldados ouvindo estrondos no quarto invadiram e seguraram a esposa de cócoras enquanto o principal “gladiador” a esbofeteava com a cólera no olhar e o rosto rasgado por suas “garras”. Com a esposa já fraca e espancada outro soldado começa a estuprá-la junto mais dois de uma só vez. A sessão canibalesca tinha atestado sua trégua temporariamente e, a surrada esposa, começava mais uma de suas lutas.
Trancada em seu quarto, toda ensangüentada e com seu feto nas mãos, gritava por ajuda. Mas a hecatombe ainda mostraria seu lado mais sanguinário; foi aí que um dos soldados adentrou no quarto gritando muito e tomou o feto de seus braços jogando-o aos cães famintos que o devoraram em cerca de segundos. Tudo isso fora vislumbrado pela pequena que já não tinha mais forças para chorar ou gritar por misericórdia.
No terceiro dia os soldados continuaram as tortura, mas dessa vez com choques na sua genitália e freqüentes queimaduras anais até que ela falasse o paradeiro de seu marido. Mas a pequena muçulmana já tinha sido estuprada inúmeras vezes durante dois dias anteriormente; viu seu filho se r abortado a meio a força; vislumbrou o “devir” ser estraçalhado por cães; tudo isso a levou a reter mais forças contra aqueles pérfidos soldados, mas que no momento surgia apena no seu intelecto.
Seguiram os soldados a molestar a esposa, mas agora ela enfrentava tudo calada e com o olhar inerte para uma das paredes da casa com as mãos e os joelhos no chão, não era um momento de oração, pois ela já não tinha mais noção de tempo, espaço e religiosidade. Vendo que não conseguiriam nada com a esposa, os soldados foram embora com a ameaça que se a encontrassem novamente, matá-la-iam. O olhar continuava inerte na atmosfera de sua mente. Recortara as imagens dos cães estraçalhando seu filho e a repugnância proferida dia a pós dia de seu marido como se fossem as únicas imagens enxergadas em sua curta temporada na terra. Mas teve que retomar algumas coisas, principalmente sua extensa e amarga vida.

Rapidamente a esposa de Abu-Béquer foi para casa de sua mãe na capital da Tunísia: Tunis. Não conseguiu contar às atrocidades que vivera, mas não por muito tempo, porque tinha pesadelos diariamente e, num desses, deixou escapar algumas coisas que a comprometeram perante sua mão. Contado assim tudo a sua mãe, essa a convence a escrever uma carta a seu marido imediatamente reportando-o dos fatos ocorridos. Ela escreve relatando tudo, melhor dizendo, quase tudo, porque não falou sobre a criança, mas no fim da carta disse:

“... esqueça-se de mim, refaça a sua vida, estou desonrada.”

Mas a história acaba assim: o marido recebe a carta e a amassa, jogando-a no chão com um sorriso estampado no olhar porque estava liberto de um fardo carregado há tempos. Podem estar se perguntando como sei disso, é, acho que ninguém saberá mais que eu sobre esta pequena esposa muçulmana! De fato não sei se Abu-Béquer jogou no chão a carta ou preferiu mostrá-la alegremente a sua nova família, Mas o que sei é que aquela esposa estava morta e, o que sobrara dela, era o que importava no momento e o que a faria metamorfosear perenemente.

"Esse é trechos de um (ROMANCE) sobre o massacre e resistência que fora vivenciado pelo povo argelino contras os franceses... bom acho que um dia termino, mas esse falta apenas o capítulo IV"

O PRESBÍTERO E AS GARGULAS

PREFÁCIO:

Na cidade de São Paulo, situava-se uma praça chamada (Largo do Arouche). Esse nome fora rotulado por ter sido uma propriedade outrora de José Arouche de Toledo Rendon, que por sua vez, ostentava um currículo e carreira invejável de militar, advogado, professor e político. O ambiente manteve-se possuído por uma e, a mesma, arborização; mas com algumas “entidades” de bronze, dando-lhe como ornamento, uma singular ostentação de uma república ao mesmo tempo hermética e racionalista.

O largo desterrava de suas entranhas a mais próxima das representações da matriarcal “Sodoma e Gomorra”, onde homens e mulheres congregavam em uma enigmática dança lasciva, cuja sua “radioatividade”, se expandia por todo derredor; seu contato desencadeava sobre a matéria uma desordem selada pelo selo da petrificação. A testosterona “radioativa” despertava uma agitação convulsiva a harmonia de toda a matéria, mas que passava despercebido pelo sismógrafo.

No centro do largo havia uma pequena e, antiga, igreja destoando plenamente do ambiente sodômico que lhe “entrincheirava”. Ostentava ainda marcas de uma época remota, onde sua arquitetura mostrava-se tímida e descompromissada com a arte contemporânea, pois suas paredes sustentavam esculturas pitorescas e místicas: duas gárgulas petrificadas provenientes da Idade Média. Sua arquitetura gótica era um anacronismo em céu descampado onde as espadas de sua época, fora trocada por canivetes e giletes; e seus cavaleiros e vassalos, por homossexuais, heterossexuais e prostitutas. Seu solo sempre estava repleto de folhas, lixos e outras coisas mais; esse era seu derradeiro cenário.

A paróquia era dirigida por um homem, cujo codinome, era apenas (Presbítero) e seu nome de batismo: André. Esse se encontrava envolto a subalternos fervorosos que lhe empregava devoção e companheirismo, pois sua religião atraia muitos fieis ao ministrar das missas. Embora a ordem do ambiente parecesse desordenado, prostitutas, homossexuais, lésbicas, michês e padres, buscavam conviver cada um segundo sua doutrina ou filosofia, mas como nem tudo são beijos e abraços... Acirrados debates eram aflorados no meio da praça sempre com o mesmo tema: a salvação!

Fenômenos começaram ocorrer no cerne da praça durante as noites dominicanas após o termino das missas de forma corriqueira. Perguntavam-se continuamente os que ali vislumbravam sucessões da cadeia fenomênica: “delírio provocado pelo transe hipnótico fomentada pela ideologia religiosa?” Sustentavam os psicólogos e alguns filósofos. Criaturas aladas era o estopim das conjecturas racionais para explicar os fenômenos, mas independente de suas premissas e conclusões, as criaturas submergiam das entranhas do parque e se saciavam do nécta da vida: o prazer. Embora esses fenômenos fossem tangíveis, as noites dominicanas fomentavam reações desconhecidas a algumas pessoas, principalmente aos que se “escondiam” dentro de uma perspectiva e consciência, ofertada por um mundo ambíguo; e ao mesmo tempo, racionalizado por seus habitantes.




CAP. I O PRIMEIRO PORTAL

Introspecção Nefasta

Terminar-se-ía mais uma missa dominical sobre a regência do “maestro”de Deus: Padre André. Tudo girava sobre seu próprio eixo, pois a noite foi congratulada pelas palavras disseminadas sobre o arado dos que ali congregavam; o sorriso estava estampado nas faces dos fieis... mas contrastando a alegria fiel, o “palhaço” – que outrora foi rei unânime da disseminação da alegria aos demais – fora abatido por uma estranha sensação... Havia ocorrido um fenômeno destoante aos cultos de outrora, será uma ínfima ruptura nesse eixo? Era a indagação proferida pelo padre o levando a uma assembléia consigo mesmo. Disfarçadamente buscara se esgueirar de seus fieis caminhando de forma sorrateira para atrás das cortinas, chegando assim, a santa sacristia; era o primeiro passo de uma jornada ainda inacabada. Por um momento André se sente dominado novamente por aquela sensação ainda desconhecida, mas que o obriga a repousar-se sobre uma antiga poltrona, que trazia em si – ou naqueles que a olhava – uma sensação do saudoso período barroco. Já inerte sobre o assento da poltrona, ele escuta passos e rapidamente se levanta e se esconde atrás de uma prateleira para não ser interrogado por ninguém, pois queria alcançar seu itinerário sem interrupção. Uma jovem fiel adentra o recinto sacrossanto e começa a guardar alguns objetos dentro de outra prateleira, mas o padre a espreita sem emitir ruídos para não ser interrogado por estar ali; então assim continua sua espreita esperando a ausência da fiel e, ela, o termino de sua atividade. Mas como se fosse uma anátema rogada por lúcifer, à jovem começa a alisar uma cruz de prata – como se estivesse a limpá-la - que trazia sobre si a imagem imaculada de cristo; André fielmente fitava toda aquela cena, a princípio, que ostentava a magnífica devoção de uma seguidora cristã. Mas a jovem garota começara a ostentar certa devoção exacerbada. Ela levemente esgueira seu olhar para os lados constatando estar simplesmente só no recinto, então de forma afável trás a imaculada imagem de cristo esculpida sobre aquela quantidade de prata ponte aguda sobre seus seios com a mão esquerda alisando-a de forma circular sobre seus mamilos que já se sobressaiam a camisa de viscose branca... Começava a transpirar e seus mamilos rosados destoavam à nuança oriunda da camisa, enquanto André se pegava a pressionar seus dentes sobre os lábios de forma abrasadora. A jovem ninfeta ocupava-se de arrumar o que fazer para sua outra mão – à direita; a barricada de sua saia não fora enérgica a sagacidade de seus hábeis dedos que a adentrava lhe causando um contorcionismos calóricos. O padre já se encontrava com sua batina molhada como em dias de batismo; mas abruptamente retoma sua consciência e, sai sem ser percebido por uma porta pouco convencional, e não repreende a jovem ninfeta por sua heresia.

***

Já andando sobre os corredores André sente-se ainda molhado, mas fervorosamente rezando contra os fleches que ainda se mostravam arraigadas no ataúde de suas lembranças... Aumentava assim as rezas e seus passos. Novamente escuta vozes se aproximando e, da mesma forma que outrora, se esconde, mas agora atrás de uma cortina de veludo vermelho. As vozes repercutem mais distantes, então ele se prepara para sua saída estratégica, mas repentinamente é agarrado por um abraço apertado não lhe permitindo sair daquela situação e, nem de trás da cortina; iniciava-se uma batalha contra aquela embaraçosa situação. Sem titubear os braços desconhecidos vão se abaixando e tangendo novamente a atmosfera (espírito-fisico), e suas orações são ineficazes perante a mão sobre seu membro reprodutor – que há tempos, não destilava sua potência veraz. Ele se debatia desesperadamente como se estivesse tendo um ataque epilético, mas de nada adiantava seus esforços; lembrava do ocorrido na sacristia com aquela jovem e, novamente, se pegava entregue aos calóricos braços e abraços do momento. Mas como pela segunda vez sua consciência ressurge de seu passeio leviano e o desperta para enxergar sua ação pecaminosa; ele é liberto como se nunca estivesse preso... Mas ainda era castigado por aquela sensação desagradável andando pelos corredores da igreja até finalmente se deparar com seu endereço: seu leito paroquial.

Uma cama, um candeeiro próximo de uma jarra com água repousava sobre uma mesa de carnaúba que trazia visivelmente a deterioração do tempo... Essa fora a primeira visão de André ao adentrar seu recinto de intimidade e orações; depois disto, vira e sentira somente seu corpo vagarosamente repousar-se sobre o leito. Haveria o Padre sentido uma vertigem física por ter se alimentado mal? Seu corpo poderia estar lhe notificando que a fé é abstrata e, o físico, necessário para sua peregrinação. Mas ele ainda continuava espalhado sobre sua cama e, nada, além disso, a ele, era tão mais veraz que somente isso.

André não teve tempo para vislumbrar outras coisas que aquele cenário o fazia tal. Não vira que abaixo de sua escrivaninha de carnaúba, repousava um par de sapato preto com um pé com seu orifício para cima e outro inverso; sobre seu leito um copo com água ainda repleto e seu orifício com o mádido do que não fora. Tinha também uma luneta nos pés de sua cama quase se escondendo embaixo... Esse destoava de todos os objetos de seu quarto, para que um padre teria uma luneta? Bom ele ainda era jovem para estar ocupando seu designo, sendo assim, poderia estar estudando ainda o cosmo e as estrelas em busca do enigmático... Mas acreditar em Deus não é acreditar no enigmático? Conhecer Deus é conhecer o inexplicável, incompreensível, inalcançável e tudo mais? Talvez suas sensações tenham haver com esse objeto, talvez...


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A inércia da cena anterior – o padre sobre a cama e seus objetos dispersos – fora abruptamente interrompido por uma caótica ausência de sono resultando em seu precoce despertar.Como se estivesse sobre os efeitos de uma “abdução epilética” André se debatia sobre sua cama de forma ofegante e desesperada... Mas fitando seu derredor ele vislumbrou dois olhos arregalados, uma boca proferindo latim e uma cruz – que roubara o reluzir das velas que cavalgavam sobre um valoroso castiçal sobre sua escrivaninha de carnaúba – ali estava o sopro gelado que viria recongelar o mar inquieto: Padre Vinícius! De forma maternal o padre abraçara seu amigo Andre que repousara sua cabeça sobre o tórax robusto que só podia ser percebido ao tato – coisa quase impossível – mas que saíra do plano das possibilidades, para adentrar no plano do conhecimento. Andre ainda se encontrava afoito, mas fora logo destilando palavras emaranhas mais de sentimento – que se podia ver – do que propriamente palavras coesas – ofuscadas pelo sentimentalismo; mas se acalmara e começara a desvelar a coesão de sua vontade. Contara a seu confidente a saga desde o termino da missa, até o final triunfal que fora povoar novamente seu aposento. Mas de forma continua delatava-se a boca de seu sacrossanto amigo e padre que a ele – Andre – mais parecia um “buraco” atmosférico pronto a devorar e devastar a qualquer momento tudo e todos... Mas essa visão galáctica fora laureada pelo emergir de raios solares que adentravam aquela horripilante escuridão: um sorriso entorpecido no canto da boca. Esses raios solares eram a voz de seu amigo proferindo: “não entendo como pode ter vivido essa saga sendo que eu mesmo fiquei desde que desmaiou no culto, até esse presente momento, velando seu angelical adormecer?” Os sentidos se desfiguravam perante Andre... Será que fora as overdoses de Descartes buscando provar a existência divina?

"Mais uma ficção que ainda não conclui... postei apenas para compartilhar mesmo, pois nem tive tempo para revisar o texto, então desculpe os 'erros'..."